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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Taberna da Ti Maria Torrada



Taberna da Ti Maria Torrada
 Barca do Pego-EN nº3, Alferrarede, Abrantes.


O pai trabalhava nos fornos de cal do Bom Sucesso como encarregado e decidiu fazer uma taberna, para a filha  (quando esta tinha 7anos), para esta vir a ter melhor vida, em 1943. Ficou a  ”taberna do torrado” e fixaram uma placa de madeira no exterior a dizer:
“vinhos e petiscos com elas” (azeitonas)
Passado algum tempo passaram lá, os fiscais da C.M. de Abrantes, que queriam o pagamento por ter a tábua no exterior, e logo, a tábua foi retirada.
Quando a Maria Torrada começou a ir à Escola Primária, a mãe recomendava sempre para não se demorar, para vir ajudar na taberna.
                    
O nome Torrada, veio do pai; este andava com uma camisa rota a trabalhar nos fornos de cal do Bom Sucesso, as zonas dos rasgões ficaram queimadas do sol. Tinha ele 14anos.


 No início quem ficou na taberna foi a mãe Jacinta, e a filha Maria Torrada ajudava.
A Maria recorda que nesse tempo na taberna só se vendia:
-vinho tinto e branco
-aguardente e abafado
 
-tabaco de onça, Duque o mais forte e mais quantidade-velhotes, superior e Francês.
           -tabaco definitivos, mata-ratos, Paris e 3 vintes mais caro.

Notas
  1-tinha uma licença especial para vender tabaco, que comprava no armazém do
Sr Lopes em Abrantes, agora é o Pingo Mel.
  2-o vinho e as outras bebidas, ia abastecer-se ao armazém do Sr Vitória em Alferrarede, casa verde ao lado do cinema.


Frigorifico, não havia.Tinham um pequeno tanque com areia, sem fundo, onde metiam água todos os dias, da mina ou dum poço, por ser mais fresca que a água do Tejo. As cervejas enterravam-se na areia com o gargalo para cima e ficavam mais frescas. Era tapado com madeira. Com a infiltração da água na terra não cheirava mal.
Água, para as lavagens, em especial dos copos, ia todos os dias ao Tejo com o burro busca-la, uma ou 2 vezes. Para beber ia à fonte Omnia da Quinta da Anadia.

A 1ªtaberna era pequena e ficava ao lado dum depósito de cal, onde fica a taberna atual com residência. Funcionou entre 1943 e 1956.                       

A 2ªtaberna foi na casa do rancho na Barca do Pego, entre 1956 e 1961.
A taberna actual é a 3ª, começou em 1961 aquando da construção da casa de 1ºandar. Ficando a habitação em cima no 1º e a taberna em baixo no r/c om um espaço reservado de cozinha para grupos assarem o petisco.           

Algumas histórias das milhentas, que a Maria Torrada vai contando, é como um rio em que a água límpida ainda corre; assim conta com palavras simples e claras as vivências e as amizades criadas nesta taberna que se encontra cheia de afectos. Sem esquecer os 80 anos quase feitos desta menina com uma memória fantástica.

-Rezineiros, anos 1940, 50 e 60, os chefes de vários grupos que vinham das aldeias próximas como Alcaravela, Mação , Evendos, etc. Iam levar os bidons de resina a Alferrarede à SOER e ao Sr Lagoa. O local de paragem  para comer a bucha, era na taberna da Maria Torrada.
Traziam um chouriço num pacote de papel pardo e ali conviviam a comer e a beber vinho. A Maria era pequena, muitas vezes comia com eles e ouvia as suas histórias.

-Estudantes, anos 1950, 60, 70, vinham para o Colégio Infante de Sagres do Professor Santana Maia que tinha internato e ficava nas Mouriscas. Saíam no comboio em Alferrarede e depois iam de carro para as Mouriscas, parando na taberna da Maria Torrada.
Depois do 25 de Abril de 1974, o Santana Maia vende o Colégio ao Estado.

-Ranchos para a azeitona, vinham do Carvoeiro, S.José das Matas e Alcaravela para a apanha da azeitona nos olivais da Quinta da Anadia; tinham trabalho até ao Natal. Paravam na taberna da Maria Torrada.

-Os melhores clientes eram os homens dos Fornos de Cal que funcionaram até ao início da década de 1960, e os clientes da Cal que vinham de Barco e com carros de Bois de longe, e os burros com alforges.

-Grupo de amigos e cantadores, que animaram muitos fins de tarde o convívio da taberna.
Imagine-se as anedotas que se contaram na taberna e contam.
Acrescento um pequeno episódio: um indíviduo que frequentava muito a taberna e um dia passa com a esposa de carro, este pára o carro para a esposa ver quem era a Maria Torrada de que falava em casa, “qual não foi o espanto”, era uma velha taberneira e amiga que ajuda o convívio de fim de tarde depois dum dia de trabalho!!!


Fontes:
Maria Torrada, o meu bem haja pela disponibilidade e simpatia.
Fotografias do tabaco e abafado partilha da net.

                                                                      

domingo, 13 de novembro de 2016

Estacionar o BURRO em Abrantes



Estacionar o BURRO, Abrantes anos 1940 e 1950

Argola para prender a corda do animal, comum nos palácios, é mais simples nos palheiros

Havia em Abrantes, um palheiro próprio, preparado com palha e argolas de ferro para segurar o burro, onde este descansava e comia, enquanto os donos iam tratar dos assuntos que ali os tinha levado ( à cidade).

                                                Maria Torrada na sua taberna da Barca do Pego aos 80anos

Assim aconteceu com a Maria Torrada nos anos 1950, da Barca do Pego, foi à C.M.Abrantes e estacionou o burro num destes palheiros, como não estava ninguém deixou lá os $50 centavos (5 tostões) para estacionar o burro, em cima da pedra da parede onde ficou o burro.  É verdade era assim, embora fosse dentro dum palheiro com porta aberta, havia confiança entre as pessoas!

Confiança coisa que hoje é uma raridade e estou-me a lembrar da propaganda agressiva de vendedores que andam na rua para mudança de comercializador de energia. Aconteceu com a minha mãe de 85anos; um jovem pediu-lhe a fatura da luz (EDP) para confirmar os dados, preencheu uns papéis amarelos e deixou a cópia à minha mãe em cima da mesa da sala e sem assinar, que também não sabe. Por sorte passei lá no dia seguinte e ao ver um papel amarelo da Endesa(uma eléctrica espanhola) percebi que tinham-lhe feito um contrato de luz para a Endesa. Como temos 14 dias para renunciar um contrato, fui de seguida à loja do cidadão e tive que me identificar e a custo anular o contrato com o preenchimento duma folha para o efeito.  De seguida, fui à loja da Endesa, para não poderem dizer que o correio se estraviou; consegui! Mas é triste! São burlões oficiais em nome duma empresa com estratégias tipo “conto do vigário”!
                                                 Joaquina de Jesus aos 86anos, Carnide, Lisboa

            Agora mais do que nunca “olho vivo e pé ligeiro” como eu ouvia em pequeno ao meu pai.