sábado, 24 de agosto de 2019

Injecções sem agulha em Carnide


            Injecções sem agulha

 Em Carnide,morava a “ enfermeira” Irene;a sua formaçao tinha sido a prática no dia a dia.
Desde os anos 1950 a 1985, a avó da Palmira e da Lili, exerceu como enfermeira; era tipo “João Semana”:
Não  cobrava dinheiro pelos os seus serviços aos pobres, só a quem tinha posses.


Começou no Dispensário da SCMLx, na Estrada de Benfica nº323, perto do Bairro Grandela.
Inicialmente, distribuia as farinhas e os xaropes às pessoas, aviava as receitas passadas pelo Dr Damas Mora.
Mais tarde a sogra saíu, e ela começou a dar também injecções,  passado algum tempo a SCMLx queria lá uma enfermeira com diploma, mas o Dr Damas Mora responsabilizou-se por ela e ficou.

Injecções sem agulha à miudagem
As crianças,tinham medo de levar injecções e quando era necessário,só menina Irene e que lhas dava,porque:

“a menina Irene das injecções não tem agulha? “
E ela, a Irene,mostrando a seringa, dizia-lhes:“vês alguma agulha?  Não !
Pode fazer doer um pouco porque eu tenho que carregar com o bico da seringa, as agulhas é só para os grandes”. Esfregava bem com o algodão embebido em álcool e aí espetava a agulha, mostrava a seringa depois da a agulha já estar espectada e avisava, agora é que vai doer um bocadinho porque vou encostar a seringa ao rabiosque e empurrar o liquido.
Mostrava a seringa na caixa e esfregando outra vez com o algodão para desinfectar , retirava a agulha do algodão onde a escondia, mostrando o algodão outra vez.
Das primeiras a levar injecção sem agulha em Carnide foi a neta Lili que dizia: Não dói porque é sem agulha. O algodão com o álcool escondia a agulha, ela batia forte com a mão e o algodão e logo metia a agulha, encaixava a seringa e ia metendo o liquido devagar.
            No fim, mostrava a seringa e o algodão que tinha a agulha escondida.
Fazia todo o trabalho de enfermagem pedido plos médicos, Dr Damas Mora e depois em Carnide pelo Dr Farinha:
            *pensos
            *injecções
            *partos, etc.
            De noite se a chamassem, ia a qualquer hora, acompanhada com o cão Benfica, às azinhagas dar injecções.
            A Dª Guida Vitorino Arantes de Oliveira conta que muitas vezes era em sua casa  que a enfermeira Irene ia estrelizar as agulhas e as seringas que eram de vidro. A Irene pedia à Maria Vitorino(avó da Guida) e levava um pequeno tacho para ferver durante alguns minutos, ficando OK.



Estojo da Menina Irene, de seringas e agulhas, para os diversos serviços:
-agulhas grandes para dar injecções (à esquerda), intramuscular, intraglutias
-agulhas médias para tirar sangue para análise (ao meio), endovenosas
-agulhas pequenas para dar soro, plasma, insulina (à direita), interdérmicas
Composição: seringa de vidro=embolo+corpo, canhão(adaptação vidro/metal), agulha

Os drogados
Nos anos 1970 em Carnide havia um grupo de jovens curiosos pela droga ,começaram a fumar uns charros e talvez outras drogas.
Eles juntavam-se no recanto de porta de garagem ao lado do restaurante Coreto, nesse tempo era a casa da DªIrene, ficavam na converseta pela noite dentro. A DªIrene pela 1 ou 2H da madrugada ouvia ruídos, abria a porta e ia ter com eles, pois conhecia-os de lhes dar injecções.
O que estão aqui a fazer? Os vossos pais estarão aflitos sem saber onde andam;  eles respondiam que estavam só na conversa.
Quando era inverno, convidava-os a entrar e bebiam um chá ou comiam uma sopa e dizia-lhes: vão para casa ter com os vossos pais, que já são horas. Se não àmanhã,  faço queixa aos vossos pais.

 Onde morou a “Menina Irene das injecções sem agulha”, actual restaurante Coreto.



Neta Palmira

 Também a chamavam para partos, em geral na rua, a Lili recorda um parto na subida da Rua Neves Costa ao lado do palacete dos Arantes de Oliveira, uma Sª que vinha da Pontinha com compras e pariu ali mesmo, foram chamar a DªIrene. Ela fez o parto ali e foi depois elogiada por um médico pela qualidade que viu.
Conta a prima da Palmira, na década de 1950, a enfermeira Irene fez 2 partos em casa em cima de um canapé.
 Aconteceu vir uma senhora grávida a pé da Pontinha e quando chegou à escadaria do Alto do Poço já não aguentou mais e pediu ajuda, e foram chamar a enfermeira Irene que morava perto, onde é hoje o restaurante Coreto, logo levaram a grávida para casa e ali fez o parto. Depois a Sª já com a criança foi ao hospital e elogiaram o trabalho bem feito de parto. Posteriormente aconteceu outro parto semelhante, também já no fim do tempo e vinha também a pé da Pontinha.


Na sala mortuária em 1985, aquando do falecimento da menina Irene, pelas 2H da madrugada, entrou um grupo de rapazes e raparigas que fazem um circulo à volta da caixão com espanto de quem estava no velório, ficando todos em silêncio e receando por ser o grupo dos drogados. Não falaram a ninguém, ficando vários minutos em silêncio nesse circulo e abandonando de seguida a sala mortuária.
Recorda com carinho a neta Palmira, e também o Coelho que fazia parte deste grupo
apelida-a de grande Senhora Irene.




 
  Em 2019 a Junta de Freguesia de Carnide quiz atribuir frases em vários pontos de Carnide velho, em jeito de gratidão da avó Irene, falaram com a neta Palmira que sugeriu as frases acima na fotografia na Rua Neves Costa.


Fontes:
            -Netas Palmira e Lili(Maria Leonilde)
            -SªGuida Vitorino Arantes de Oliveira

quinta-feira, 14 de março de 2019

Poetas e poesia

Poeta repentista António Felizardo 4


                      









Olha lá bem para mim
Para ver se eu te convenho
Sou muito bom rapaz
Mas dinheiro é que não tenho

Se eu tivesse a liberdade
Que o sol e a lua têm
Entrava na tua casa
Sem licença de ninguém

Se o teu novo namorado
Souber contas de somar
Não lhe contes o passado
Pois tens muito que contar

Nas ondas do teu cabelo
Ensinaste-me a nadar
Hoje que já estás careca
Ensina-me a patinar

Já chove, já está chovendo
Pingas de água no jardim
Graças a Deus que já tenho
Mulher fixe para mim

Se eu canto, dizem que eu canto
Se eu choro, dizem que eu choro
Se olho para ti e me rio
 dizem que te namoro

                  Amigos do café da 4ª, Ernesto, Aristides, Felizardo e Pereira(fotógrafo).

                                                                     
 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Lagares de Vara


            Lagares de azeite de Vara
            Cabeça das Mós e Alcaravela, Sardoal



Este Lagar de azeite de Vara deve ser muito semelhante ao que existiu na Cabeça das Mós, na zona do colmeal, actual Rua 25 Abril do Ti Joaquim Belo. Ainda laborava nos anos 40 do século xx.
Em 1950 já estava desactivado, neste década serviu para exibir peças de teatro, promovidas e ensaiadas pelas professora primária Maria do Carmo. O Carlos Alberto Pires Coelho ensaiou lá a peça de teatro “RECITAS”. A Beatriz Lopes também se recorda de ir assistir lá ao teatro.














 Iluminação a azeite, candeia de 4 bicos do lagar

Moinho de galgas a tracção hidráulica, que no Ti Belo era tracção animal, com uma mula.

Vara enorme, normalmente de castanho com fuso sempre bem lubrificado e uma pedra grande de 1 a 2 toneladas, para prensar e extrair o azeite.


 


















Fazendo subir a pedra para extrair o azeite               O aperto das ceiras pela vara e o fuso c/ a pedra



O azeite depois de extraído. Daqui vai para as tarefas a decantar, ficando a água no fundo e o azeite em cima, depois as tarefas são purgadas por baixo até saír a água ruça toda para um depósito nos baixos do lagar, chamado “inferno”. O azeite vai então ser arrumado em vaselhame de barro ou de chapa.



Outros lagares e de vara existentes em Cabeça das Mós, todos desactivados:
            -Lagar de vara da Lapa, uns 20m depois da capela. Do Ti Luís Alpalhão.
Este lagar era movido pela roda de azenha, com água trazida pela levada  da ribeira de Entrevinhas. O Luís Santos do café ainda se lembra de lá ir levar azeitona com a carroça no fim dos anos 50 e 60. Com a construção da barragem desapareceu.
            -Lagar da Rua Casas Crespas, construído nos anos 40 por Boaventura Milheriço e o Camilo a 50% cada. A tracção era feita por um motor monocilindro a diesel, que transmitia por uma correia o movimento a um veio instalado em chumaceiras na parede do lagar  longitudinal, donde partiam correias para as várias funções; moenda, bateria, e uma prensa.
Nos anos 50 foi adaptado um dinamo de 12V que carregava duas baterias 12v, que alimentava a iluminação a 12v instalada no lagar. Este lagar foi adquirido pelo João Lagarinho.
            -Lagar do Ambrósio à EN; mas detido em 33% por António Ambrósio, Júlio Ambrósio e Miguel Moleiro. Já tinha um motor de 2 cilindros a diesel e duas prensas. O José Lopes trabalhou aqui alguns anos nas campanhas do azeite. Em ruínas.
            -Lagar das Cavadas de Manuel Alpalhão e mestre lagareiro, tinha instalado um motor de 2 cilindros e duas prensas. Transformado em habitação.
            -Lagar do Vale Porto, era de Manuel Dias Bia, depois Alcoino Alves e mais tarde adquirido por Joaquim Alves “pintado” que o transformou em serralharia. A família Bia chegado o tempo da azeitona contratava um rancho para a apanha e o lagar só trabalhava para esta família. O Manuel Pires Coelho ainda em 1945/6 fez reparações neste lagar.

Lagares de vara e outros existentes em Alcaravela, todos desactivados:
            -Lagar de vara de Amieira da Cova, Cabril, Porto Escuro e Cimo dos Ribeiros.
            -Lagar com motor a diesel no Cimo dos Ribeiros, Tojalinho, Panascos e Vale Formoso.
            Actualmente a azeitona de Alcaravela vai quase toda para os lagares de Montalegre, o da cooperativa e o do Mogno.
Nesta última campanha só abriu  a cooperativa de Montalegre e a “funda” foi baixa, inferior a 10, como exemplo duma medura de 402Kg de azeitona recebeu 37l de azeite.Neste lagar ainda se leva para casa o azeite da nossa azeitona.

Em Alcaravela, ainda no século XX, as serras à volta eram cobertas de oliveiras, o pinheiro bravo era pouco. Só nos anos 60 começou a desaparecer este olival e aparecer mais o pinho.
Nos casamentos, as famílias, informavam-se se o namorado tinha olival suficiente e só assim permitiam o namoro da filha; soube dum caso nos anos 60 na Presa.



Fontes:
-Maria do Céu de 86anos, filha do Ti Joaquim Belo.
-Fabrico de Azeite, por A.Urbano de Castro, edição da Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa 1932.
-Visita em 2016 a um lagar de vara em laboração, numa ribeira de Góis.
-Alcaravela memórias de um povo, pelo Dr. Augusto Serras, edição da C.M.Sardoal.
-José Lopes
-Manuel Mendes Pereira de 79anos, Presa
-Beatriz Lopes
-Carlos Alberto Pires Coelho



sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Manuel Correia Falcão, mecânico de material aéreo


            Manuel Correia Falcão, n1934 na C.Mós
            Mecânico de material aéreo, nos anos iníciais da Força Aérea Portuguesa

Fez a inspecção para a tropa em 1954, como qualquer jovem daquela época;  no fim desta, o Sargento perguntou, se alguém queria ingressar na Força Aérea podia meter os papéis para mecânico, e insistiu precisando:
 quem estivesse interessado em ir para mecânico de material aéreo,  só precisava que já tivesse trabalhado em serralharia ou com ferreiros

           
            O Manuel Falcão, tomou a decisão de SIM !   O pai era Ferreiro na C.Mós, Sardoal e ele trabalhava com ele. Por isso já tinha alguma prática.
Esta foi uma aposta de vida sem medo do desconhecido e pronto para aprender; sempre com muita formação e uma abertura para um mundo para além da aldeia de Cabeça das Mós.


 

Em 1954 foi colocado na BA1-Sintra e em 1955(Base criada em 1939) fez o Curso de mecânico de material de avião durante 1 ano (curso de avião). Era um avião Inglês o “Chipmunq”, foi o 1ºavião de treino dos pilotos em 1952, um mono-motor de cilindros invertidos. O chipmunk ainda voa em 2018 na Força Aérea.

No fim de 1955 foi colocado na BA3 em Tancos, a trabalhar como mecânico de material de avião até 1965. Em 1956 mudaram o nome para mecânico de material aéreo.
Em Tancos trabalhou no Junker de origem Alemã, trimotor de alcunha “canguru” por ser parecido com o mesmo. Avião de transporte de carga e lançamento de pára-quedistas, onde Hitler terá voado.


1965-foi para a Guiné na 1ªcomissão, BA12-Bissalanca onde ficou até 1967.
Trabalhou no Dornier DO-27 com motor Americano de 6 cilindros horizontais e a estrutura (carcaça) era Alemã, era um avião de transporte de carga e pessoal entre os quartéis.
Também fazia manutenção de aviões Cub. Este era um avião de treino pequeno, com 4 cilindros e hélice fixa.
 Avião DO-27



1967-foi para Monte Real 1 ano, base criada para aviões de jacto. Trabalhou em aviões T33-F86-F16 Americanos e jactos Fiat.

Aviões a jacto, em cima T33, ao meioF86 e em baixo F-16

De 1968 a 1984 voltou a trabalhar na base de Tancos.
Nestas datas ainda fez uma 2ªcomissão  na Guiné de 1971-1973 com aviões Noratlas, era um avião trânsatlantico que levantava 21toneladas, peso da carga e do avião.

Em 1973 fez parte da equipa que foi buscar a Espanha, Sevilha 20 aviões Aviocar, tipo casa 212, o motor era feito em Fénix nos EUA. Em Sevilha era feita a montagem e pós-venda.
Avião turbo-hélice, para lançamento de 22 para-quedistas com os seus equipamentos. Também era usado no transporte de feridos. Estes aviões já não foram para as ex-colónias. Em Tancos foram vistos os problemas e partiram-se 2 aviões nas aterragens,
            1º na aproximação à pista de Alverca.
            2º na aproximação à pista do Pico nos Açores.
O erro foi igual, na aproximação não por falta de visibilidade mas por instrumentos que se partiram nos 2 aviões.

Quando passou à RESERVA /Reforma era Sargento Ajudante. Faz agora com gosto o que aprendeu em criança; agricultura, onde destaco o vinho( como uma boa pinga que já provei) e o mel, pois ainda resiste como apicultor; o que é difícil devido às actuais doenças nas abelhas e a abelha asiática que já apareceu no concelho de Sardoal, devorando e atacando as nossas abelhas.

Fontes:
-Manuel Correia Falcão, “Nélito” o próprio com 84anos.
-José Pimenta Lopes, vizinho e amigo da C.Mós.
-José Pereira, estava em Alverca nas OGMA em 1972/3, aquando da Guiné e os Aviocar. Estive na área de Electrónica de Terra onde se reparavam os equipamentos de telecomunicações dos teatros de guerra das colónias portuguesas e dávamos apoio às manobras da Nato.

                        

-Júlio Santos, n1940 na Venda Nova, foi também mecânico de material aéreo, esteve
com o Manuel Falcão na Guiné, era especializado em aviões a jacto.

                                                          

sexta-feira, 20 de julho de 2018

A vida do poeta José Fernandes Teixeixeira


            Vida já longa e dura de José Fernandes Teixeira   
     
           
                    
Nasceu em 14/7/1926 em Vila Seca de Poiares, Régua, Vila Real. E fez a 4ªclasse em 1937,
poesia à professora primária
            Colegas vamos para a escola
            Que temos que aprender bem
            Que a senhora professora
            É a nossa segunda mãe
           
No verão de 1948  com 22 anos fugiu de casa, depois de saber que havia trabalho de obras no Bºdo Caramão da Ajuda em Lisboa. Convem lembrar que tinha acabado a 2ªGuerra Mundial e havia falta de tudo e de trabalho, eram tempos miseráveis.
            O meu sonho
            É ver Lisboa
            Vêr o mar
            Que nunca vi

Foi à estação do comboio da Régua e pediu um bilhete para SªApolónia e não lho queriam vender, mas lá foi.
Chegado a Lisboa foi para a Ajuda, Bº do Caramão, onde arranjou trabalho,daqui ercreveu aos pais. E para dormir era debaixo de pontes e nos bancos dos jardins; nesse tempo as obras não tinham barracas nem contentores para dormitório dos empregados. Uma noite foi corrido pela polícia da rusga, dum banco de jardim onde estava a dormir.
            poesia do desalento
Já pensei
Que a minha vida
Estava a chegar ao fim

Arranjei uns pais adoptivos
Que me deram a mão
Eram boa gente
Tinham bom coração
Andou pelas obras cerca de 5 anos, no Inverno ia para a “terra”-Vila Seca de Poiares. Depois do Bº do Caramão da Ajuda, andou a desmanchar a piscina do palácio dum Conde na R.Pinto Ferreira e em frente na Rua do nº19-3º grita o Sr Gomes para falar com o encarregado. No fim desse dia sábado,  o encarregado perguntou a todos quem é que queria ir trabalhar no domingo a plantar árvores no jardim do prédio nº19, e só o José Teixeira aceitou e combinou depois com o Sr Gomes o ordenado, ele que ganhava 20$00/dia ficou a ganhar 40$00/dia nesse trabalho extra e depois como jardineiro do prédio.
O Sr Gomes, que era bancário no BNU na R.Boavista, gostou do trabalho do jardineiro e um dia propos arranjar-lhe trabalho, apresentando 3 propostas:
            1-Ir para o ultramar, não aceitou.
            2-Ir para guarda-freire, condutor de eléctricos na Carris, não dava, era preciso ter 1,65m de altura. Ou ir para as oficinas, era estar fechado, não quiz.
            3-Ir para “Almeida” * na CMLisboa, ao que aceitou de seguida.



  
Posto de Limpeza da Boa-Hora (DHU-DLU-Z1) 

       Onde foi jardineiro e arranjou caminho p/CML  






 Conseguiu trabalho na CMLisboa, como cantoneiro na Ajuda, Largo da Boa Hora em 13/4/1953 onde ficou até 1961, aqui tinham camaratas para dormir. Aqui concorreu a Capataz, de 60 ficaram 23, sendo ele um deles, com vantagem de ter a 4ªclasse.

Casa de habitação, como já tinha um filho de 4 meses pensou em alugar um quarto e assim aconteceu por 180$00/mês, nas Salésias ao campo do Belenenses; mandou vir a esposa com o filho. Passado tempo soube pelo barbeiro da CML na Ajuda que havia uma barraca nas terras do Palácio da Ajuda e aproveituu-a por 50$00/mês.
 Em 1961 soube do início da construção do BºPadre Cruz, escreveu ao Presidente da CML- General França Borges a pedir uma casa, queixando-se que vivia numa barraca na Ajuda com a familia e sem condições. Recebeu lá um polícia a confirmar e em 6/11/1961 recebeu a chave da casa na R.Rio Lena nº5 onde mora à 57anos, “outros tempos”.
 
       1970-O poeta José Fernandes Teixeira e a esposa Filomena Barbosa

Depois tentou ir para perto de casa, onde houvesse eléctrico, ainda não havia autocarros. Ainda em 1961 foi para a zona do Arco Cego e depois para Sete Rios junto ao Jardim Zoológico.
Finalmente ainda em 1961-foi para Carnide, quando houve uma vaga, onde concorreu e ficou como Capataz. As instalações eram debaixo do coreto e depois em ~1966 ao lado da escadaria na estrada da Correa.
           
            Poesia que dizia aos colegas da limpeza
            Enquanto houver
Vassoura e pá
Esta vida não está má

1974-a pedido da chefia foi para Benfica, instalações no Moinho do Jardim Silva Porto. Aqui devido ao bom desempenho e por pedido dum morador recebeu um louvor de OURO em 4/12/1989.

           
Voltou a concorrer em 1980, de 60 ficaram 28 e chegou a encarregado, onde se manteve até 1989, fazendo 36anos de serviço e pediu a aposentação.


Em jeito de terminar, pedi ao poeta José Teixeira o sêlo, pensou no começo da vida e como é aos 91anos:
            Noutros tempos meu netinho
Era o melhor dos meninos
            Não faziam ruindades
            Eram bons os pequeninos
            Iam para a escola contentes
            Vinham da escola a sorrir
            Não gritavam pelas ruas
            E não sabiam mentir

            Cá está o pobre velhinho
            A cantar neste cantinho
            De olhos pregados no chão
            Anda em busca de aventura
            Como quem anda à procura
            Nesta perdida ilusão


* Nota: “Almeida”= cantoneiro ou varredor de rua, antes do Presidente França Borges era outro que era de Almeida, e nessa tempo, anos 50, davam esse nome a quem varria as ruas devido à origem do presidente da CML.

Fontes:
            José Fernandes Teixeira, Bº Padre Cruz
            Rogério Vicente, Carnide; também conhecia o encarregado Simões, anos 60.

                                                                                  

domingo, 8 de julho de 2018

Sapateiro Armando desde 1953


                        Sapateiro Armando e o cliente João Villaret


                    
Nasceu em 1933 na aldeia de Ribeira, Góis. Com 17 anos em 1950 rumou a Lisboa à procura de melhor vida do que o campo. Arranjou trabalho de sapateiro como aprendiz em Santos o Velho.
Em 1953 com 19 anos, vai para uma engraxadoria na Rua da Boavista nº120 perto do elevador da Bica, no hall de entrada do prédio, onde havia 6 cadeiras para sentar os clientes enquanto engraxavam os sapatos. Aqui se manteve até hoje, há 65 anos. Nesse tempo havia 10 sapateiros nesta Rua.

      

Na continuidade das cadeiras havia uma arrecadação a aproveitar o espaço debaixo da escada, onde eram feitos arranjos de sapatos e sapatos novos à medida dos pés do cliente.








Nestes anos 50 e início de 60 morava em frente no 2ºandar o João Villaret, nascido ali mesmo em 10/5/1913 que era um cliente bom e generoso e já afamado no Teatro (menino de Ouro), o Armando engraxava-lhe os sapatos e ia levá-los a casa recebendo em vez dos 1$50 ...2$50.
O ritual do João Villaret, todos os dias esperava pelo Vasco Santana depois de almoço e aí pelas 15H, iam os dois para o Teatro. Em baixo à porta do prédio tinha sempre uma média de 6 velhotes a pedir, e o Villaret tinha sempre 5$00 trocados para cada um. No princípio dos anos 50 a vida era mais dura e ele partilhava do seu pão !


Com o 25 de Abril em 1974, esta profissão começou a desaparecer, até que na Rua da Boavista só ficou o sapateiro Armando. As cadeiras de engraxar foram vagando e sendo vendidas até que por fim apareceram uns Italianos que compraram as últimas duas para museu.

Depois do 25 de Abril o negócio é básicamente arranjos de sapatos e tem vindo sempre a dimínuir. Eu conheci-o por esta altura, pois trabalhava perto, e sempre que havia sapatos para consertar era no   Sr Armando, ficando sempre um trabalho impecável e também me aconselhava que os sapatos já não mereciam o arranjo. Também de manhã quando ia com colegas beber um café dávamos os bons dias e brincávamos um pouco com o Armando.


Actualmente o que mais faz é arranjos em sapatos comprados nos “Chineses”, que não prestam. No meio da conversa vem a comida, e o Armando recorda o almoço de “cozido à portuguesa” ao domingo na Parede, que agora por doença não pode comer.

 
Fontes:
   Armando João, sapateiro no activo  já com 85 anos.
   José Pereira, cliente desde 1973.

 
                                                                   
               

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Forno Regional João Padeiro O Rei do Folar, Chaves




 O tradicional folar de Chaves amassado com ingredientes caseiros, da sua quinta, cozido em forno de lenha, com a experiência  e ensinamentos ancestrais, é uma especialidade e referência nacional.   
O segredo está nas mãos e na boa carne, dando os bons folares..

O folar é mais saboroso com a qualidade do presunto, da carne magra e da gorda.
Na sua quinta o João Padeiro tem para consumo na padaria:
-ovos das suas galinhas
-presunto e enchidos dos seus porcos; sendo o fumeiro feito de forma tradicional.

 

O Folar a entrar no forno às 7H, e já meio cozido às 8H na foto em baixo.

O João recebe encomendas de Lisboa, Porto, do país em geral e Espanha. O João começa a trabalhar às 4H da madrugada, para as pessoas terem o pão a tempo e horas e só depois faz os folares.

Receita do folar:
1Kg de farinha
12 ovos
20g fermento de padeiro
15g de sal
250g de manteiga
1 copo de azeite =2dcl
1 copo de leite
Massa macia. Levedar 1 hora.  O fermento desfaz-se ao desfazer os ovos com o leite.
Mas diz o João Padeiro “é preciso mãozinhas” !



 
Folar, pão saloio. Pão de centeio.



A vender a irmã Maria Isabel Grilo.





Bolo económico e também faz: pastel de Chaves, bola de carne, empadas e bolos de fruta.



História breve do começo
O João nasceu em 1954 e desde novo ~9anos, começou a aprender com o pai que era padeiro na padaria Engrácia na rua do Sol.  Ainda fundou uma padaria no Largo do Anjo.
Casou e foi para Leiria onde teve um café, mas ao fim dum ano voltou.
1976-Pediu ao pai para fazer uma padaria na casa de habitação na Av da muralha ou R.Postigo nº9, o pai inicialmente disse que não dava, mas o João falou com o presidente de Chaves e este autorizou.
Onde é hoje o forno da padaria, amassava o pão e ia cozer ao antigo forno que já tinha sido dele. Na volta vendia o pão quase todo e o de encomenda, o que sobrava vendia na janela da casa. Dormia por cima, no sótão.
Passado pouco tempo, ampliou a casa, fez o avançado para instalar o balcão de venda e a casa da lenha.
Mais tarde instalou na casa o forno e a chaminé com cerca de 10m acima do telhado.

            
        

                                                
Fontes:  João Padeiro
              Maria Isabel Grilo